A Operação Gomorra provocou hoje (sexta-feira, 11) um novo abalo político e institucional em Xambrê. A ofensiva do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Paraná, atingiu simultaneamente integrantes dos poderes Executivo e Legislativo, com as prisões preventivas do agora ex-secretário municipal de Cultura Pedro Henrique da Silva Mota e do vereador Edinalvo Lima Venturi, vice-presidente da Câmara e responsável, até então, pela condução dos trabalhos da Casa.
As prisões foram confirmadas pelo coordenador do Núcleo de Umuarama do Gaeco, promotor de Justiça Guilherme Franchi da Silva Santos. Os mandados de prisão preventiva foram expedidos pelo Juízo de Garantias de Xambrê e cumpridos durante ação integrada entre o Gaeco e a Polícia Civil, por meio da 7ª Subdivisão Policial de Umuarama.
Segundo o promotor Guilherme Franchi, a investigação aponta que Pedro Henrique, que até esta sexta-feira ocupava a Secretaria Municipal de Cultura, teria se aproveitado também de sua atuação religiosa para se aproximar das vítimas. Conforme relatado pelo representante do Ministério Público, o então secretário aliciava crianças durante atividades de catequese. Trata-se de uma das linhas investigadas pelo Gaeco, e as responsabilidades ainda deverão ser definidas no decorrer do processo.
A Operação Gomorra investiga, entre outros fatos, possíveis crimes de exploração sexual, importunação sexual e produção e armazenamento de conteúdo de violência sexual envolvendo crianças ou adolescentes. De acordo com o Ministério Público, os elementos reunidos até o momento apontam, em tese, para ao menos 16 vítimas.
Além das duas prisões preventivas, a operação cumpriu três mandados de busca e apreensão e outros dois de busca pessoal. Durante as diligências, uma pessoa também foi presa em flagrante por posse ilegal de munições. Celulares, documentos e anotações foram recolhidos e passarão por perícia, etapa considerada fundamental para determinar a extensão dos fatos investigados e eventual participação de outras pessoas.
A prisão de Edinalvo Lima Venturi cria uma situação ainda mais incomum dentro da Câmara Municipal. Isso porque o vereador exercia a presidência dos trabalhos justamente em substituição ao presidente da Casa, Ademir Leite da Silva (PL), conhecido como “Cabeção”, que permanece foragido da Justiça.
Cabeção possui mandado de prisão preventiva em aberto desde maio. Conforme decisão judicial, a ordem está relacionada a investigação envolvendo descumprimento de medida protetiva, ameaça e lesão corporal contra a ex-companheira. Em maio, policiais civis foram até a residência do parlamentar para cumprir o mandado, mas ele fugiu pelos fundos do imóvel depois de ser informado sobre a ordem judicial.
Posteriormente, a situação do presidente da Câmara se agravou em outra frente. Em junho, Ademir Cabeção foi condenado, em primeira instância, a 10 meses e 25 dias de detenção, em regime inicial semiaberto, pelos crimes de embriaguez ao volante e resistência, referentes a uma ocorrência registrada em abril de 2025. A decisão admite recurso.
Com Cabeção ausente e Edinalvo agora preso preventivamente, o comando dos trabalhos legislativos deverá passar ao 1º secretário da Mesa Diretora, vereador Mauro Cesar Ferreira. O próprio Regimento Interno da Câmara determina uma linha sucessória: na ausência ou impedimento do presidente, assume o vice-presidente; depois, o 1º secretário; em seguida, o 2º secretário e, posteriormente, o vereador mais idoso. Documentos oficiais do Legislativo identificam Mauro Cesar Ferreira como 1º secretário da Mesa.
Dessa forma, em poucos meses, a Câmara de Xambrê chega à terceira figura na linha de comando: Ademir Cabeção permanece foragido, Edinalvo assumiu os trabalhos em sua ausência e agora, com a prisão preventiva do vice-presidente, Mauro Cesar Ferreira passa a ocupar a posição prevista regimentalmente para conduzir a Casa durante os impedimentos dos dois primeiros integrantes da linha sucessória.
No Executivo, a repercussão também foi imediata. Poucas horas depois da operação, a Prefeitura de Xambrê oficializou a exoneração de Pedro Henrique da Silva Mota da Secretaria Municipal de Cultura, com efeitos a partir desta sexta-feira (11).
Em nota oficial, o prefeito Décio Jardim informou que a administração municipal tomou conhecimento somente nesta sexta-feira dos fatos atribuídos ao então secretário. Segundo o Executivo, até a deflagração da operação, a Prefeitura não possuía conhecimento das informações que vieram a público.
A administração acrescentou que as acusações deverão ser devidamente investigadas pelas autoridades responsáveis, respeitando-se o contraditório e a ampla defesa. A Prefeitura ressaltou ainda que não lhe cabe antecipar julgamento sobre os fatos apurados.
Em relação à crise no Legislativo, o Executivo destacou que Prefeitura e Câmara Municipal são poderes independentes e afirmou não possuir controle ou ingerência sobre decisões, atos ou condutas atribuídos aos integrantes da presidência da Casa.
A Operação Gomorra não começou de forma isolada. A nova investigação surgiu a partir da análise de materiais recolhidos durante a Operação Res Privata, deflagrada em 4 de março. Segundo o Ministério Público, o conteúdo encontrado nos equipamentos e documentos apreendidos naquela investigação revelou indícios da possível ocorrência de outros crimes, levando à abertura de uma nova frente de apuração.
Agora, celulares, documentos, anotações e demais materiais recolhidos nesta sexta-feira serão submetidos à análise do Gaeco. O objetivo é aprofundar a investigação, estabelecer a dinâmica dos fatos, identificar possíveis outras vítimas e individualizar as responsabilidades.
Enquanto as apurações avançam, Xambrê enfrenta uma situação política incomum: o presidente da Câmara permanece foragido, o vice-presidente que o substituía foi preso preventivamente e o secretário municipal de Cultura também acabou preso e exonerado no mesmo dia.
Apesar da gravidade das suspeitas investigadas, as prisões preventivas não representam condenação. Os investigados têm direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência, e as responsabilidades somente poderão ser definitivamente estabelecidas após o devido processo legal.