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O antigo terminal rodoviário de Umuarama, ao lado da desativada Estação Rodoviária velha, amanheceu diferente nesta quarta-feira (20). O espaço que, por semanas, serviu como ponto de concentração de famílias indígenas de duas aldeias do Paraná estava praticamente vazio. Restavam apenas algumas barracas de lona e duas mulheres indígenas no local. A cena marcava o fim de um período delicado para a cidade e para os cerca de 50 a 60 indígenas que passaram pelo município em situação de extrema vulnerabilidade social.
Durante a permanência em Umuarama, os indígenas — oriundos principalmente das aldeias Ivaí, em Manoel Ribas, e Rio das Cobras, em Nova Laranjeira — circularam pelas ruas centrais vendendo artesanato e, diante da falta de renda suficiente, recorreram à mendicância como forma de sobrevivência. Crianças pequenas, expostas ao sol, à chuva e à insalubridade do espaço urbano, tornaram-se parte visível dessa realidade, pedindo dinheiro nos semáforos e esquinas com o repetido apelo: “Dá moeda”.
O cenário rapidamente deixou de ser apenas uma expressão cultural ou econômica e passou a configurar um problema social grave, com reflexos diretos na saúde pública, na segurança e, sobretudo, na proteção de crianças e adolescentes. Famílias inteiras improvisaram abrigo em uma área sem infraestrutura adequada, utilizando espaços públicos degradados, o que gerou preocupação entre moradores, comerciantes e órgãos públicos.
Sem instrumentos legais para remover compulsoriamente os indígenas — cuja mobilidade é um direito constitucional —, o poder público municipal atuou de forma paliativa. O Centro Pop tornou-se o principal ponto de apoio, oferecendo alimentação, banho, roupas, acompanhamento social e cadastro das famílias. Com o fechamento da Casa da Sopa no fim de ano, o serviço passou a assumir integralmente a alimentação do grupo. Segundo o coordenador Anderson Aguiar, o número de atendimentos mensais saltou de 170 para 243 apenas em dezembro, evidenciando a sobrecarga da estrutura.

Ainda assim, a assistência não foi suficiente para neutralizar os riscos enfrentados pelos indígenas. Relatos de furtos, agressões e intimidações fazem parte do cotidiano vivido pelo grupo, embora muitos casos sequer tenham sido registrados oficialmente. Em várias situações, a solução encontrada foi deixar a cidade, reforçando o ciclo de deslocamento e vulnerabilidade.
A saída definitiva da maioria dos indígenas ocorreu após uma reunião realizada na prefeitura, envolvendo o prefeito Fernando Scanavaca, o cacique da tribo de Nova Laranjeiras, representantes do Poder Judiciário, Funai e Secretaria Municipal de Assistência Social. O encontro resultou em uma articulação para o retorno organizado das famílias às aldeias, com apoio logístico e acompanhamento social. Logo nas primeiras horas da manhã seguinte, quase todos os indígenas que ainda permaneciam em Umuarama embarcaram de volta.
O episódio expõe, de forma contundente, a fragilidade das políticas públicas voltadas aos povos indígenas em trânsito e a ausência de estruturas permanentes para acolhimento temporário digno. Também escancara a contradição entre o direito à mobilidade, a preservação cultural e a realidade dura das cidades, que frequentemente não estão preparadas para lidar com essa presença de forma humanizada e eficaz.
Mais do que um fato isolado, a passagem dos indígenas por Umuarama encerra 2025 e inicia o ano de 2026, como um alerta: sem políticas integradas, o problema se repete, a vulnerabilidade se agrava e crianças seguem sendo expostas em um limbo social onde cultura, pobreza e omissão do Estado se cruzam diariamente.
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